“Quando a gente pensa
de onde viemos e onde estamos hoje,
não tem o que nos deixa mais realizado.
A Annoni representa mudança de vida […]”

 

Uma área com 9,3 mil hectares, capim e meia dúzia de cabeças de gado. Esta era a antiga fazenda Annoni, localizada no município de Pontão, na região Norte do Rio Grande do Sul, antes de ser ocupada pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na madrugada do dia 29 de outubro de 1985.

Conforme os assentados que fizeram parte da ocupação, o latifúndio tinha sido desapropriado em 1972 para assentar remanescentes da Hidrelétrica Passo Real, contudo, o processo entrou em morosidade na justiça. Treze anos depois, de forma organizada, mais de sete mil pessoas derrubaram as cercas do latifúndio e fizeram da Annoni um dos maiores acampamentos do MST no RS.

“A Annoni já tinha sido ocupada inúmeras vezes por pequenos grupos da região. Mas a polícia sempre os tirava de lá, muitas vezes sem ordem judicial. Em 1985, quando ocupamos, já tinha um pelotão policial que ficava permanentemente em cima da área para protegê-la contra as ocupações. Mas a ação do MST levou 1,5 mil famílias de 32 municípios, e eles não puderam nos tirar”, lembra o assentado na Annoni, Mario Lill.

Nem todas as famílias que participaram da ocupação do latifúndio hoje moram no local. As primeiras saíram em julho de 1986 para serem assentadas em Eldorado do Sul, na Fazenda São Pedro. A definição de quem ficaria na Annoni ocorreu em 1990, mas as últimas famílias, que foram assentadas em outros lugares, saíram da fazenda somente dois anos depois.

 

O acampamento

Ari Pilatti, um dos ocupantes do latifúndio, conta que as famílias já estavam organizadas quando ocorreu a ocupação, o que contribuiu para a resistência do acampamento. “Foram mais de dois anos se organizando para fazer a ocupação. Já em cima da área, nós tínhamos os núcleos de base e constituímos os setores de saúde, alimentação, segurança, liturgia, entre outros. Até hoje nossa organização se mantêm assim, e tem grupos que permanecem trabalhando junto desde aquela época”, relata.

A situação das famílias no acampamento era de extrema pobreza, lembra Lill, e as dificuldades existiam em todos os sentidos. “Nós dependíamos de doações de alimentos, muitas crianças morreram por desnutrição e anemia, e para ter acesso à saúde era uma guerra permanente. A estrada era de terra vermelha e nos dias de chuva não conseguíamos sair. Naquela época, no final da ditadura militar, não existia telefone e só tínhamos acesso às notícias quando saíamos do acampamento. Além disso, não havia negociação entre camponês e autoridades, e sofríamos muitas ameaças dos policiais, repressão, torturas e humilhação. Lá, haviam também infiltrados se passando de acampados, semeando brigas e discórdia”, recorda.

A luta pela Annoni também se deu fora da fazenda. Foram realizadas várias marchas e ocupações que duraram meses no Instituto Nacional de Colonização de Reforma Agrária (Incra) e Assembleia Legislativa do RS, a fim de pressionar o governo para desapropriar áreas para assentar famílias acampadas. Uma das marchas mais marcantes foi protagonizada por 350 Sem Terra, que saíram do acampamento na fazenda Annoni até Porto Alegre. “Durante a caminhada íamos debatendo com toda a sociedade sobre a reforma agrária, e quando chegamos na Capital já éramos 100 mil pessoas. O povo deitou na Praça da Matriz e disse que não sairia dali”, conta Lill.

“[…] não havia negociação entre camponês e autoridades, e sofríamos muitas ameaças dos policiais, repressão, torturas e humilhação.”

As ações realizadas pelo MST resultou na época a promessa de desapropriação de cinco áreas para assentar parte famílias. Mas, segundo a agricultora Juraci Lima, que também ocupou a antiga fazenda Annoni, não passou de promessa, e quando as famílias se organizavam para ir às áreas de reforma agrária o acampamento foi cercado por policiais. A solução foi continuar a luta pela terra. No município de Sarandi, os Sem Terra realizaram uma coletiva à imprensa para denunciar o cerco na fazenda Annoni. “Ninguém entrava ou saída do acampamento, estávamos todos cercados. Mas saímos escondidos e nos reagrupamos lá fora. Foi uma saída estratégica, assoprada ao pé do ouvido para cada companheiro”, lembra Jora.

A luta pela democratização da terra na fazenda Annoni tombou a Sem Terra Roseli Nunes, mãe do médico Marcos Tiaraju. Além dela, outras dois pequenos agricultores foram atropelados num manifestação no trevo de Sarandi. “Rose dizia que era pra gente ajudar os agricultores de Rondinha na mobilização contra a política agrícola da época, que queria entregar a terra dos pequenos aos bancos. Ela era linha de frente, enfrentava, não tinha medo”, diz Lill, lembrando que o desmanche do latifúndio também teve o apoio do parde Arnildo Fritzen.

A união e a força do povo foi o que mais marcou os Sem Terra. Lill refere-se aos anos de ocupação como um período de boas lutas. “Se precisasse fazer tudo de novo eu faria com o maior gosto”, declara.

 

Os frutos da luta

Hoje, a antiga fazenda Annoni está dividida em sete comunidades, onde vivem 423 famílias. A maioria possui escola, ginásio de esportes, igreja e espaço de lazer. Uma delas sedia, ainda, um posto de saúde, com atendimento médico e odontológico. Porém, todas as famílias têm água encanada, saneamento básico e boas casas para morar. Tudo foi construído com muito suor e luta dos trabalhadores Sem Terra. “Hoje, todo mundo tá vivendo bem”, emenda o assentado Pilatti.

“Hoje, todo mundo tá vivendo bem.”

A Annoni também se destaca na educação: os filhos dos assentados e assentadas podem estudar da educação inicial até a superior sem sair da área. Através do Instituto Educar, fundado há 11 anos, são oferecidos dois cursos: técnico em agropecuária com habilitação em agroecologia, integrado ao ensino médio, e o curso superior em Agronomia. Eles são realizados em parceria com o Instituto Federal do Rio Grande do Sul, campus Sertão, e o Instituto Federal da Fronteira Sul.

 

Trabalho e renda

Trabalho e renda também são realidades na Annoni. No ano de 2006, atendendo demandas dos agricultores foi fundada a Cooperativa Agropecuária e Laticínios Pontão Ltda (Cooperlat), que trabalha com industrialização e comercialização do leite, e envolve cerca de cem famílias Sem Terra e outras da região. Ela também atua na assistência técnica com uma equipe de veterinários e agrônomos para fomentar a produção de leite – hoje, a Cooperlat recolhe em média 200 mil litros ao mês. Além disso, faz a entrega de produtos ao Programa Nacional de Aquisição de Alimentos (PNAE) em mais de 50 escolas dos municípios de Carazinho, Passo Fundo e Pontão. A cooperativa trabalha para criar uma indústria de queijos e bebidas lácteas.

Outra cooperativa, fruto da luta dos Sem Terra, é a Cooperativa de Produção Agropecuária Cascata (Cooptar), fundada em 1990. Lá, quinze famílias trabalham na produção de embutidos e com vários cortes de carne, que é entregue para escolas e mercados da região. Hoje, o frigorífico tem abatedouro com capacidade de abater 100 cabeças de gado e 4 mil porcos ao mês. As famílias também produzem leite para a Cooperlat e adotaram como política interna a produção de alimentos para subsistência, onde o cultivo ocorre de maneira coletiva e cada um colhe, da horta ou pomar, o suficiente para se alimentar.

Segundo os assentados e assentadas, através das cooperativas e tudo o que foi construído em mais de três décadas de luta na antiga fazenda Annoni, os Sem Terra evitam a evasão rural, uma vez que além de estudo, há garantia de trabalho e renda para os jovens. “Estamos conseguindo incorporar a juventude, com carteira assinada, para que ela permaneça no campo”, diz Ari.

Tem um casal de médicos que moram lá. Isso é motivo de muito orgulho. Tem 20 casas hoje na agrovila. A médica atua no município, com atendimento especial na Annoni, e ele acompanha o programa Mais Médicos no município de Palmeira das Missões para acompanhar a implantação do Hospital Público Regional.

 

O que representa

“Quando a gente pensa de onde viemos e onde estamos hoje, não tem o que nos deixa mais realizado. A Annoni representa mudança de vida, porque é deste pedaço de chão que tiramos nosso sustento para vivermos bem. Para mim, não há o que me deixa mais feliz. Tudo o que conquistamos foi através da organização, que nos deu uma lição de vida, com muita amizade, respeito e companheirismo”, conta Ari.

“Quando a gente pensa de onde viemos e onde estamos hoje, não tem o que nos deixa mais realizado. A Annoni representa mudança de vida […]”

O assentado Mário Lill complementa que a Annoni mostra que a luta pela terra vale a pena. “Ela é o exemplo de que a reforma agrária dá certo, seja do ponto de vista econômico ou social. O que construímos em coletivo é bonito demais e fazer parte dessa história nos dá um prazer sem tamanho. Ali, nós procuramos fazer do lugar onde moramos o melhor lugar do mundo para viver enquanto ser humano”, concluiu Lill.

Fonte: Voz da Terra, Informativo da CPT-RS, novembro de 2016.

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