De amizade, amor e afetos

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Nossa civilização “encaixotou” o afeto. Sim, logo o afeto que nos estimula a criarmos as condições para nossa plena realização humana. O ser humano é um ser em construção e que, por isso mesmo, demanda e exige investimentos afetivos a vida toda. O cuidado, como algo essencial e que constitui a nossa condição humana, deve ser resgatado se quisermos devolver à humanidade o verdadeiro sentido de sua existência.

Não somos a fonte do amor. É que o amor não se impõe, o amor se gera na liberdade. O amor é busca e conquista. Trata-se de buscar e conquistar a dignidade para a qual fomos criados (Vídeo Afetividade e Sexualidade, Mundo Jovem)

Em nossa trajetória de humanos, não sobrevivemos se não somos bem cuidados. Somos, na escala dos seres vivos, os mais dependentes de todos. Saímos da barriga da mãe, caímos nos braços de uma família. Aos poucos vamos crescendo e nos integrando aos grupos sociais da escola, da vizinhança, dos amigos, dos colegas de trabalho. E, cada fase de nossa vida, exige que sejamos cuidados. E que saibamos cuidar, da gente e dos outros. E, somente juntos, promovemos relações que nos integram à sociedade, pois temos, todos, a necessidade de nela sermos aceitos, queridos e promovidos.

A necessidade do cuidado e as carências afetivas, próprias do ser humano, não significam nenhum atestado de fraqueza humana. O que nos torna fortes, capazes de superar as nossas maiores contradições, é a nossa capacidade de encarar as nossas maiores carências, pois estas nos despertam para o crescimento e discernimento pessoal, afetivo e social.

Como seres de e em relação, os outros são aqueles que, através da convivência, nos permitem imensas possibilidades de auto-conhecimento. Nossos relacionamentos afetivos e sexuados sempre carregam as marcas da sexualidade que nos compõe. Por isso, “o amor é a necessidade gostosa do outro. Fala-se em complementariedade, porque não somos felizes voltados sobre nós. Uma pessoa que admiramos carrega dentro dela uma ternura que nos faz bem”.

As amizades, relações que comungam de partilha, de compreensão, de doação, de gratuidade, de mútua ajuda e confiança são oportunidades que muitos constroem por acreditarem que a sua realização, como pessoa humana, depende da integração, convivência e complementariedade a serem construídas com os outros. São também, excelentes oportunidades de vivenciar a doação. Por que “o amor é doação. Tudo o que contradiz a doação, machuca. Ninguém é mais do ninguém, porque na doação todos somos iguais e temos a mesma vocação. É neste ser-doação que mora o divino de cada um”.

Redescobrir-se como um ser em permanente relação com os outros pode ser a grande contribuição que cada um, individualmente, pode oferecer para a elevação de uma nova consciência de humanidade. Reconhecer e vivenciar valores como a solidariedade, a amizade, o amor, a partilha, a alteridade pode nos possibilitar um mundo onde existam menos violentos e menos violentados.

A solução duradoura para os problemas de convivência social não passa pela construção de novos presídios e nem pelo endurecimento de nossas leis. A cura destes males está na promoção da vida e da humanidade, através do cultivo do amor e do afeto. E na promoção da justiça. Está em nós. Romantismo? Não. Crença na minha e na tua possibilidade de fazer a diferença, enquanto seres que ainda acreditam na força do amor e da amizade. Repare que cada dia que amanhece é sempre um convite para você crer que o amor cura e o abraço salva.

Nei Alberto Pies, professor e ativista de direitos humanos.         

CDHPF
Entidade da sociedade civil que articula indivíduos para apoiar organizações sociais que lutam pela garantia e promoção dos direitos humanos.

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