X Colóquio Nacional de Direitos Humanos reúne mais de 200 participantes em Passo Fundo e destaca a amorosidade como prática política

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Evento celebrou os 40 anos da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo e promoveu debates sobre o direito ao amor e à amorosidade como fundamentos para a construção de uma sociedade mais justa.

Entre os dias 13 e 15 de maio de 2025, a Faculdade de Direito da Universidade de Passo Fundo (UPF) foi palco do X Colóquio Nacional de Direitos Humanos, promovido pela Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo (CDHPF). Com o tema “Direito ao amor e direito de amar” e o lema “Quem ama luta por direitos humanos!”, o evento reuniu 205 participantes inscritos, além de diversas turmas de estudantes que se integraram nas atividades.

Durante os três dias de programação, foram apresentadas 30 comunicações em quatro salas presenciais e duas em ambiente virtual, abordando temas como políticas públicas, justiça social, povos originários, educação e questões de gênero, raça e classe. Além disso, três conferências noturnas marcaram a programação cultural e formativa, reunindo nomes de referência em diversas áreas do conhecimento.

A abertura do evento contou com a presença de autoridades e lideranças sociais, seguida pela entrega do Prêmio Direitos Humanos para Eldon Henrique Mühl, como personalidade homenageada, e para a Associação Cultural de Mulheres Negras (ACMUN), premiada na categoria entidade. A conferência de abertura foi conduzida por Makota Celinha, liderança das religiões de matriz africana e diretora do CENARAB (MG), que abordou o tema “O direito ao amor e o direito de amar”.

No segundo dia, o professor Sérgio Haddad (PUC-SP/Ação Educativa) debateu os desafios pedagógicos para “reencantar amorosamente” as relações sociais, com mediação de Eldon Mühl (CDHPF) e participação de Ana Prates (educadora) e Cristian Puhl (ativista LGBT). A noite também contou com apresentações do Samba de Ilê e do Grupo Alforria.

O encerramento, no terceiro dia, teve como convidada Jurema Werneck, médica e diretora da Anistia Internacional no Brasil, que discutiu práticas cotidianas de amorosidade como direitos humanos, ao lado de Flávia Biondo (Grupo Ecológico Sentinela dos Pampas) e Leandro Demori (Instituto Conhecimento Liberta). A programação incluiu ainda a apresentação artística do grupo UPF Krè.

Amorosidade como ética e prática política

As vozes que ecoaram durante o X Colóquio Nacional de Direitos Humanos não se limitaram aos auditórios. Elas também se manifestaram nos bastidores da organização, nas vivências de quem participou e no sentimento coletivo de que o amor é um ato profundamente político. Os depoimentos de organizadores e docentes envolvidos revelam a profundidade das reflexões propostas pelo evento e a potência de seu legado.

Para Paulo César Carbonari, coordenador geral do Colóquio, o evento foi muito mais do que um ciclo de debates: tratou-se de uma verdadeira celebração do compromisso ético com a transformação da sociedade. “O Colóquio foi uma celebração da amorosidade. Nos ofereceu subsídios reflexivos, mas acima de tudo reafirmou o compromisso ético e político com a construção do que Paulo Freire chamava de ‘inéditos viáveis’”, afirmou. “A participação e a colaboração das convidadas e convidados foi fundamental. Trouxeram análises críticas e nos deram uma injeção de ânimo para seguir caminhando.”

Essa ideia de construção coletiva como potência transformadora também foi destacada por Ésio Salvetti, coordenador da Comissão de Direitos Humanos de Passo Fundo. Para ele, o Colóquio reafirmou seu lugar como espaço plural e necessário para repensar a cidadania a partir do afeto e da dignidade. “Ao colocar o amor no centro do debate sobre direitos humanos, propusemos um deslocamento necessário: do campo técnico-jurídico para uma abordagem que reconhece os afetos como dimensões legítimas e fundamentais da vida política e social”, explicou. Ele lembrou ainda que discutir o direito ao amor também é denunciar as múltiplas formas de negação de direitos vividas por corpos marginalizados e afirmar a amorosidade como forma de resistência.

A dimensão formativa do evento foi ressaltada por Elisa Mainardi, professora da Universidade de Passo Fundo, que acompanha os Colóquios desde suas primeiras edições. Ela chamou atenção para o impacto pedagógico da iniciativa, especialmente com a realização do Pré-Colóquio: “A colcha de retalhos ‘Tecendo amorosidade’, construída a partir das ações do pré-colóquio, ficou lindíssima. Mas o mais importante foram os processos de diálogo, as ‘brigas’ pedagógicas, as desconstruções que vivemos juntos. Foi ali que a amorosidade se fez prática”, relatou. Ela também celebrou a presença ativa dos acadêmicos indígenas do curso de Pedagogia Intercultural, que compartilharam um ritual ancestral como gesto simbólico de resistência e cuidado coletivo.

A interseção entre amorosidade e compromisso social foi o ponto central da reflexão trazida por Vanderleia Pulga, professora da Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS). Em sua visão, o Colóquio proporcionou uma rara oportunidade de mergulho coletivo nas raízes das violações de direitos humanos, sem perder de vista a urgência de construir novas relações. “A amorosidade é o caminho para a construção cotidiana de novas relações humanas, sociais, econômicas, políticas e culturais. É preciso ter um amor incondicional ao ser humano e ao mundo, como nos ensinou Paulo Freire”, afirmou.

Essa relação entre afeto, justiça e ancestralidade também atravessou o relato de Eliana Bortolon, professora da Faculdade Anhanguera, que destacou a profundidade das reflexões promovidas pelas mesas temáticas e conferências. “A CDHPF nos convoca a pensar a amorosidade como uma decisão política. Participar do Colóquio foi um privilégio existencial. Saímos desacomodados, mas fortalecidos para seguir sonhando com um mundo mais justo”, disse. Ela reforçou que dialogar com autores como Paulo Freire e bell hooks abriu reflexões sobre os caminhos de enfrentamento às violências que marcam a atualidade.

A dimensão provocativa do evento, especialmente diante de um contexto social de endurecimento das relações, foi destacada por Ionara Soveral, professora do Instituto Federal Sul-rio-grandense (IFSul Passo Fundo). “A temática do Colóquio foi ousada. Pautar o direito ao amor em tempos de banalização do ódio exige coragem e lucidez. Ninguém saiu de lá isento de responsabilidade”, afirmou. Ela encerrou sua fala relembrando o depoimento do indígena Kaingang Leandro, que, ao citar o cuidado com os sapatos e com a casa comum, convocou a todos à radical defesa da vida e da natureza.

Conectadas por um mesmo horizonte ético e afetivo, essas vozes revelam que o X Colóquio Nacional de Direitos Humanos foi, acima de tudo, uma prática de escuta, de encontro e de reinvenção política. Uma reafirmação de que o amor pode — e deve — estar no centro das lutas por justiça social.

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